sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ciclo E Não Só Círculo

Eu e ele vivemos um ciclo contínuo de atração por desejo não correspondido. É que a barba dele é mais completa quando ele não repara nos meus cabelos.. E a ausência dele é mais dolorosa quando me mantenho presente. Contudo ele repara mais no espaço vago em meu pescoço quando eu não me importo se é a boca dele a ocupar. E me procura quando eu nem lembrava da sua existência. É um ciclo vicioso, só não mais vicioso do que o beijo ardente quando os desejos raramente se encontram. Certamente o calor do corpo dele é bem irresistível quando não está disponível a minha pessoa e as vezes me surge a dúvida de ser esse o melhor tempero para o seu corpo. Temperado ou não, sempre é quente a conexão. Longe ou perto, principalmente pela madrugada. É vergonha ser refém desse desejo que me torna burra, e mais burra por ele ser tão inteligente e ao mesmo tempo não notar, que os anos passam, a rotina muda, mas a gente se esbarra em cada curva da vida, com as mesmas desculpas.

(Nara Gomide, 08 de Agosto de 2015)

Versao atualizada:

Eu e ele orbitamos um eixo torto,
um jogo de desejo nunca em sincronia.
A barba cresce quando meu cabelo passa despercebido,
e sua ausência pesa mais quando insisto em ficar.

Ele repara no espaço vago do meu pescoço
quando já não me importa quem o ocupa.
E me busca quando já esqueci de sua existência.

Um ciclo vicioso, tão ardente quanto o beijo raro,
o encontro breve entre vontades desalinhadas.
Seu corpo, sempre mais quente quando inacessível,
faz nascer a dúvida:
é essa a receita do desejo?

Temperado ou não, a conexão sempre queima,
especialmente na madrugada.
Vergonha é ser refém de um querer que me cega,
mais ainda quando ele, tão astuto,
não percebe que os anos passam, a rotina muda,
mas continuamos esbarrando nas mesmas desculpas.